A PRESERVAÇÃO DA PAISAGEM NATURAL E URBANA DE IMBÉ

 A PRESERVAÇÃO DA PAISAGEM NATURAL E URBANA DE IMBÉ 

Bióloga Me. Bianca Spindola               Arquiteto e Urbanista J. Geraldo V. da Costa

“Chegamos a um ponto na História em que devemos moldar nossas ações em todo o mundo, com maior atenção para as consequências ambientais. Através da ignorância ou da indiferença podemos causar danos maciços e irreversíveis ao meio ambiente, do qual nossa vida e bem-estar dependem. Por outro lado, através do maior conhecimento e de ações mais sábias, podemos conquistar uma vida melhor para nós e para a posteridade, com um meio ambiente em sintonia com as necessidades e esperanças humanas…”

“Defender e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações se tornou uma meta fundamental para a humanidade.”

Trechos da Declaração da Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente (Estocolmo, 1972), parágrafo 6.

Organizada pela Unesco,  em 1972, a Conferência Geral da Organização das Nações  Unidas   para   a   Educação,  Ciência   e  Cultura,   reunida   em Paris,   quando   foi instituída   a   Lista   do   Patrimônio   da   Humanidade,   para   inscrição   de   bens   de   valor excepcional ao redor do mundo. Poderiam ser inscritos nessa lista bens patrimoniais com critérios Culturais ou Naturais.

Consideraram  como  Patrimônio  Cultural,  obras   arquitetônicas,  esculturas,   pinturas, inscrições, grutas ou grupos de elementos com valor universal excepcional, do ponto de vista da história, da arte ou da ciência. Além de obras produzidas pelo homem, ou obras conjugadas   do   homem  e   da   natureza,   integram  a   categoria   de  Patrimônio   Natural monumentos   naturais,   formações   geológicas   e   fisiográficas   “e   as   zonas   estritamente delimitadas que constituem habitat de espécies animais e vegetais ameaçadas, com valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação” (UNESCO, 1972).

A cidade de Imbé, que se constitui como um exemplar do urbanismo do início do século XX, representando realizações de grande significação enquanto exemplo cujas características eram áreas residenciais circundadas por áreas verdes situadas na orla marítima do litoral norte, que nos possibilitara a investigação que será sobre crescimento desenvolvimento.

O projeto do Imbé do Engenheiro Ubatuba de Faria reflete o Diagrama de Ebenezer Howard como solução que se enquadra na cidade jardim e revela o início da ocupação moderna do litoral norte e de ser projetado como modelo urbano.

Implantado em um litoral desocupado e virgem na mais longa costa marítima linear, livre e desimpedida do mundo, a atual cidade do Imbé foi planejada como um bairro junto ao Balneário de Tramandaí, junto ao município de Osório/RS.

Seu objetivo era a exploração de áreas litorâneas para finalidade de veraneio de lazer sazonal. Com o crescimento desta prática social que está relacionada ao lazer e à habitação secundária, destinada a classe média emergente do Rio Grande do Sul na década de 30.

A rarefação da ocupação e desvalorização das áreas litorâneas associadas à decadência das atividades rurais e extrativas na região criaram condições ideais para esta nova ocupação, em solo desvalorizado e livre para o desenvolvimento urbano e a consequência da especulação urbana.
Neste quadro, a atuação do Eng. Ubatuba de Faria, na cidade do Imbé caracteriza-se como um verdadeiro empreendimento imobiliário em território, portanto livres de constrangimentos físicos e econômicos.

O projeto urbano de Imbé está ligado a este momento da sociedade, entre os anos 30, passa obrigatoriamente pela ocupação do litoral norte, aliado a um promissor e nascente mercado imobiliário favorecendo ao desenvolvimento econômico e social da região.

O território em uma situação ideal para o exercício urbanístico: terra desimpedida e valor do solo baixo.
A classe média gaúcha havia começado há tempos a se intensificar e a comprar uma segunda casa, um modelo novo no litoral desde o seu início, abrindo assim um mercado imobiliário.

O projeto do Imbé funcionou como elo de desenvolvimento da região, o modelo de cidade jardim utilizado serviu de modelo para outras cidades.

O litoral rio-grandense apresenta vários caracteres peculiares. Existe uma uniformidade de estrutura em toda a sua extensão, com exceção a Torres; há um paralelismo de disposição evidente dos elementos da paisagem, já que tudo se orienta em direção sudoeste-nordeste e por último a multiplicidade de coloridos produziu uma paisagem exclusivamente rio-grandense que não há similar em todo o Brasil (1).

A paisagem litorânea é alterada freqüentemente, seja pela interferência direta ou indireta do homem ou por fatores físicos, químicos e/ou biológicos. As zonas costeiras são afetadas pelas mudanças do clima e do nível do mar, além da exploração pelo homem, que leva ao declínio gradativo dos recursos em diversas escalas, principalmente na escala regional. Entre as atividades do homem que alteraram consideravelmente a paisagem do litoral, através do desmatamento, bem como por drenagens, destacam-se: criação de gado, plantação de arroz e grandes extensões de monocultura de eucaliptos e de Pinus.

A vegetação

A delimitação real dos domínios da Mata Atlântica tem gerado muitas discussões. Originalmente, se estendia do Ceará ao Rio Grande do Sul e praticamente acompanhava todo o litoral brasileiro, cobrindo 1.306.421 km2 do território; atualmente, restam 8% do bioma original (2).  A Mata Atlântica é constituída por florestas de planície e de altitude, matas costeiras e de interior, ilhas oceânicas e ecossistemas associados, como restingas, manguezais e campos de altitude.

 A ocupação estrangeira do território brasileiro se deu pela costa, através de um pensamento de conquista e uso de um número máximo de recursos, sem nenhuma pretensão de conservação e manejo e sim atendendo a evolução econômica.

Mesmo restando tão pouco da cobertura original, a Mata Atlântica ainda é uma das florestas com maior biodiversidade do mundo.  Muitas espécies ameaçadas de extinção e/ou endêmicas dependem desse bioma para a sua sobrevivência e conservação.

 A vegetação que observamos atualmente na faixa litorânea em Imbé pertence à restinga, que é um ecossistema associado à Mata Atlântica. No entanto, a forte pressão antrópica e o aumento da urbanização fizeram com que restassem poucas áreas com condições favoráveis ao estabelecimento e a conservação da vegetação. Mesmo assim, em algumas faixas de dunas no Imbé ainda podemos avistar a flora e a fauna associada que fazem parte da restinga.
          
As areias litorâneas oferecem um substrato desfavorável à vida vegetal. Alguns fatores dificultam o estabelecimento de vegetais na planície litorânea. Entre eles: a areia é pobre em substâncias nutritivas para as plantas, a permeabilidade quanto a água é alta, há uma quantidade de sal marítimo que imobiliza grande parte da água infiltrada, o calor do sol é intenso e faz evaporar a umidade das camadas superficiais, o vento causa um impacto nas partes aéreas dos vegetais e é o principal responsável pela mobilidade das dunas, que muitas vezes acaba soterrando regiões nas quais vegetais conseguem se fixar(3).
          
No entanto, mesmo com todos esses fatores que dificultam a fixação e a sobrevivência dos vegetais nesse ambiente, a natureza sempre se mostra desafiadora.  Existem espécies vegetais tolerantes e adaptadas a essas condições. Algumas características fisiológicas e/ou morfológicas na planta podem aumentar a sua tolerância, como por exemplo: ser suculenta, apresentar abcissão foliar, possuir um reduzido número de estômatos, e apresentar glândulas de excreção de sal, entre outras.
          
A vegetação de restinga é bastante complexa e vai desde tipos herbáceos até arbustivos e arbóreos. As dunas podem ser divididas em primárias (antedunas), secundárias e terciárias. As dunas primárias constituem uma comunidade pobre na riqueza de espécies, formada basicamente por Paspalum vaginatum, espécie extremamente tolerante à salinidade. Nas dunas que se estendem paralelamente à costa, as secundárias e terciárias, há uma diversidade mais elevada onde comunidades diferentes alternam-se devido a maior ou menor influência do lençol freático (4). Espécies como Hydrocotyle bonariensis e Panicum racemosum são características nessas dunas.

As dunas secundárias e terciárias possuem um papel ecológico importante na formação e na fixação das dunas costeiras, já que apresentam adaptações ao contínuo soterramento pela areia transferida pelo vento (5). No entanto, apenas uma faixa pequena da planície litorânea em Imbé ainda possui dunas secundárias e terciárias, estas foram substituídas por calçadões e por construções de quiosques, casas e etc. Mesmo assim, em função da fragilidade dos ecossistemas de restinga, a vegetação que existe, exerce um papel fundamental para a estabilização dos sedimentos e a manutenção da drenagem natural, bem como para a preservação da fauna residente e migratória associada.

A fauna
          

O Rio Grande do Sul tem uma importância ecológica mundial no que diz respeito às aves migratórias. Além destas, muitas aves residem na costa litorânea, e podem ser vistas com facilidade em Imbé.  Algumas espécies que ocorrem no Imbé estão organizadas numa lista (Tabela 1).


A listagem a seguir teve como base o material elaborado pelo Ceclimar e pela UFRGS (Aves de Imbé-Litoral Norte/RS), tendo sido este revisado e atualizado com base na lista proposta pelo CBRO (Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos) 2006, Listas de Aves do Brasil. Versão 10/02/2006.

Disponível em Aves do Brasil 


Tabela 1. Aves de Imbé, litoral norte do Rio Grande do Sul.

Espécie
Nome comum
Família
Status
Plalacrocorax brasilianus
biguá
Phalacrocoracidae
R
Ardea Alba
garça-branca-grande
Ardeidae
R
Egretta thula
garça-branca-pequena
Ardeidae
R
Syrigma sibilatrix
maria-faceira
Ardeidae
R
Nycticorax nycticorax
savacu
Ardeidae
R
Mycteria americana
cabeça-seca
Ciconidae
R
Rostrhamus sociabilis
gavião-caramujeiro
Accipitridae
R
Milvago chimango
Chimango
Falconidae
R
Falco sparverius
quiriquiri
Falconidae
R
Caracará plancus
carcará
Falconidae
R
Haematopus palliatus
piru-piru
Haematopodidae
R
Pardirallus sanguinolentus
saracura-do-banhado
Rallidae
R
Jacaca jacaca
jaçanã
Jacanidae
R
Himantopus himantopus
pernilongo
Recurvirostridae
R
Vanellus chilensis
quero-quero
Charadriidae
R
Espécie
Nome comum
Família
Status
Charadrius collaris
batuíra-de-colar
Charadriidae
R
Charadrius falklandicus
batuíra-de-coleira-dupla
Charadriidae
VN
Tringa melanoleuca
maçarico-de-perna-amarela
Scolopacidae
VN
Gallinago paraguaiae
narceja
Scolopacidae
R
Larus dominicanus
gaivotão
Laridae
R
Sterna trudeaui
trinta-réis-de-coroa-branca
Laridae
R
Rynchops niger
talha-mar
Rhynchopidae
R
Zenaida auriculata
pomba-de-bando
Columbidae
R
Columba Lívia
pomba-doméstica
Columbidae
R
Leoptotila verreauxi
juriti-pupu
Columbidae
R
Crotophaga ani
anu-preto
Cuculidae
R
Guira guira
anu-branco
Cuculidae
R
Athene cunicularia
coruja-buraqueira
Strigidae
R
Hylocharis chrysura
beija-flor-dourado
Trochilidae
R
Colaptes melanochlorus
pica-pau-verde-barrado
Picidae
R
Colaptes campestris
pica-pau-do-campo
Picidae
R
Furnarius rufus
joão-de-barro
Furnariidae
R
Xolmis irupero
noivinha
Tyrannidae
R
Satrapa icterophrys
suirir-pequeno
Tyrannidae
R
Machetornis rixosus
suiriri-cavalheiro
Tyrannidae
R
Pitangus sulphuratus
bem-te-vi
Tyrannidae
R
Tyrannus savana
tesourinha
Tyrannidae
VS
Progne tapera
andorinha-do-campo
Hirundinidae
R
Troglodytes musculus
corruíra
Certhiidae
R
Sicalis flaveola
canário-da-terra
Emberizidae
R
Thraupis sayaca
sanhaçu-cinzento
Emberizidae
R
Coereba flaveola
cambacica
Emberizidae
R
Sturnella superciliaris
polícia-inglesa
Icteridae
VS
Amblyramphus holosericeus
cardeal-do-banhado
Icteridae
R
Molothrus bonariensis
chopim gaudério
Fringillidae
R
Passer domesticus
pardal
Passeridae
R




. 
Aves de Imbé, litoral norte do Rio Grande do Sul.






Além destas aves citadas na lista, algumas aves marinhas pelágicas migram para o litoral gaúcho, como albatrozes, petréis e pingüins.
Em relação aos cetáceos, grupo representado por baleias, botos e golfinhos, até o momento, é conhecida a ocorrência de 42 espécies para o Brasil, sendo que o Rio Grande do Sul é a área com uma das maiores diversidades do país. Atualmente, são registradas 34 espécies para a água do Estado, o que representa 80% de todas as espécies do país. No entanto, muitas dessas espécies não são avistadas por serem oceânicas (6).
As espécies de cetáceos mais freqüentemente encontradas são Pontoporia blainvillei (toninha), Tursiops truncatus (golfinho-comum), Eubalaena australis (baleia-franca) e Delphinus delphis (delfim-comum) (7).
Entre os pinípedes, as espécies mais observadas são Otaria flavescens e Arctocephalus tropicalis, principalmente durante o outono e a primavera (8). Os outros pinípedes são visitantes ocasionais.
             Relação pescador-boto-tainha no estuário do Rio Tramandaí


Entre Tramandaí e Imbé, no Rio Tramandaí e no Rio Mampituba, existe uma forte cooperação entre o homem e os botos, os pescadores se introduzem no mar até a cintura, enquanto o boto ecolocaliza o cardume e o conduz até próximo à costa, avisando do melhor momento para o tarrafeio (9). Essa interação, entre os pescadores e os botos, pode ser vista acontecendo com uma certa facilidade na barra; de um lado os homens possuem sucesso na pesca e por outro, os botos aproveitam as tainhas que escapam da rede.  A pesca é altamente ritualizada e parece envolver comportamento aprendido tanto no homem como no delfim. Pesca especializada culturalmente transmitida. Os estuários funcionam como regiões de reprodução e crescimento para muitas espécies de peixes, que se beneficiam das condições de “abrigo” e da disponibilidade de alimentos.
         

               CONSIDERAÇÕES FINAIS


Estamos vivendo uma crise ambiental mundial, ao mesmo tempo, há um crescente comprometimento para resolver os problemas atuais. Dessa forma, devemos pensar num gerenciamento costeiro de qualidade, na qual esteja incluído o manejo adequado de todos os recursos naturais, para que haja uma redução da ameaça a flora e a fauna, possibilitando dessa forma uma vivência mais harmônica do homem no litoral. Esse gerenciamento deve ser pensado de forma a conservar a biodiversidade e respeitar o habitat na qual estamos inseridos e dependemos dele para uma boa qualidade de vida.
Para que possamos usufruir o que a paisagem nos proporciona e utilizar os recursos naturais do litoral gaúcho por muitas gerações, é necessário que haja conhecimento científico, consciência e gerenciamento. Para isso, devemos buscar as conexões responsáveis pela manutenção do ecossistema; pensar na conservação em escala apropriada, ou seja, não apenas em conformidade com as fronteiras políticas estabelecidas pelos governos; reconhecer que o ser humano faz parte dos ecossistemas e que valores humanos influenciam a conservação ou destruição dos ecossistemas.


Algumas medidas podem ser feitas para ajudar na conservação do litoral, como a limitação de extração de recursos naturais, controle do lançamento de resíduos, do uso do solo e etc. Devemos juntar esforços na conscientização (educação ambiental), na fiscalização (leis cumpridas) e na pesquisa científica para a melhor compreensão da estrutura, na composição da flora e fauna, das interações entre o homem e o meio ambiente.





NOTAS
1-              RAMBO, B. A fisionomia do Rio Grande do Sul. 2°ed. Porto Alegre: Selbach, 1956.
2-              SCHAFFER, W. B.; PROCHNOW, M. (Orgs). A Mata Atlântica e você: como preservar, recuperar e se beneficiar da mais ameaçada floresta brasileira. Brasília, APREMAVI, 2002.
3-              Ver nota 1.
4-              PFADENHAUER , J. & RAMOS, R.F.. Um complexo de vegetação entre dunas e pântanos próximo a tramandaí-Rio Grande do Sul, Brasil. Iheringia, ser. Bot., Porto Alegre, 1979.
5-              Ver nota 1.
6-              FONTANA, C.S; BENCKE, G..A; REIS, R.E. (Org). Livro Vermelho da fauna ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2003.
7-              SEELIGER, U., ODEBRECHT, C. & CASTELLO, J.P. (Eds). Os ecossistemas Costeiro e Marinho do Extremo Sul do Brasil. Editora Econscientia, Rio Grande, 1998.
8-              Ver nota 7.
9-              TABAJARA,L.  Aspectos da relação pescador-boto-tainha no estuário do Rio Tramandaí-RS. In: Botos do Rio Tramandaí. Prefeitura Municipal de Tramandaí/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 76 p., 1992.
             10.         Texto. Jose Geraldo Vieira da Costa . Link Imbé;o adeus a cidade jardim
                                               



Comentários